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    Bob Valentino: filho de Bitori, discípulo de Iduino e um dos rostos da nova geração do funaná

    4 de agosto de 2026

    Filho de um dos maiores nomes da história do funaná, Bob Valentino está a afirmar-se como uma das principais referências da nova geração de tocadores de gaita cabo-verdianos. O músico, de nome próprio Victor Tavares, herdou do pai não apenas o nome de batismo, mas também o talento e a paixão pela gaita.


    Victor é filho de Bitori Nha Bibinha, considerado um dos mais influentes tocadores de gaita de Cabo Verde e uma figura incontornável do funaná.


    Questionado sobre a origem do nome artístico Bob Valentino, sorri, mas prefere não revelar a história. Limita-se a dizer que se trata de uma história "complicada de contar" e rapidamente conduz a conversa para outro tema.


    Natural do bairro da Achadinha, na cidade da Praia, Bob Valentino nasceu há 32 anos e cresceu rodeado de música. Como acontece com muitos filhos de músicos, também começou a tocar gaita às escondidas do pai. Antes disso, acompanhava-o nas atuações, tocando ferrinho.


    Um dia, quando ainda não tinha 10 anos, surpreendeu o pai ao dizer-lhe que já sabia tocar gaita. A oportunidade para provar surgiu durante uma atuação para um grupo de turistas estrangeiros. Bitori entregou-lhe a gaita e passou para o ferrinho. A estreia ficou marcada na memória do músico. "Devo ter tocado corretamente durante uns 20 segundos. Depois comecei a olhar para a reação das pessoas, perdi a concentração, desafinei tudo, até parei de tocar. No fim recebi uma enorme salva de palmas", recorda, entre risos.


    Foi o primeiro contacto com o "palco" enquanto tocador de gaita. Desde esse dia, nunca mais largou o instrumento.


    Outro momento decisivo na sua trajetória musical, aconteceu quando Iduíno, dos Ferro Gaita, visitou Bitori e ouviu o jovem Bob Valentino tocar, na altura ainda respondia pelo nome de Victor. Impressionado com o talento, convidou-o para integrar os ensaios da "Escola de Música Tradicional Ferro Gaita".


    Dessa experiência nasceu, em 2007, o grupo juvenil Gaita Ferro, formado por adolescentes dedicados à preservação e renovação do funaná. Três anos depois, em 2010, a formação lançou os seus primeiros temas, marcando o início do percurso profissional de Bob Valentino [ver no Youtube]


    Desde 2015, Bob Valentino vive em Portugal, onde conseguiu transformar a música na sua profissão. Além dos concertos, dedica-se ao ensino da gaita, ministrando aulas presenciais e online para alunos de diferentes países e nacionalidades. É também um requisitado músico de estúdio, gravando linhas de gaita para artistas como Zé Spanhol, Lejemea, Leo Pereira, Gil, Kino, Taresa Fernandes, entre outros.


    Paralelamente, é frequentemente chamado para integrar ou formar bandas que acompanham artistas em espetáculos pela Europa e por Cabo Verde.


    No próximo dia 8 de agosto, regressa ao país para atuar no Festival We Love Cotxi Po, na cidade da Assomada.

     

    Apesar da carreira na diáspora, mantém uma forte ligação aos Ferro Gaita. Sempre que surge oportunidade, é convidado por Iduino para subir ao palco com a banda. Um destes momentos aconteceu no Festival 1 Concelho, 3 Ritmos 2026, na cidade de Pedra Badejo, onde os dois tocaram gaita em simultâneo.  Para muitos, poderia parecer um desafio coordenar dois instrumentos iguais em palco. Bob Valentino garante que acontece exatamente o contrário. "A ligação é imediata. Tocamos no mesmo ritmo, entendemo-nos naturalmente e acabamos por nos complementar."

     

    Outro momento que recorda com carinho, aconteceu há cerca de dois anos, quando partilhou o palco com o pai, ambos empunhando a gaita, num espetáculo realizado no B.Leza, em Lisboa.


    Considera ser filho de Bitori e todo aquilo que representa, uma bênção e afirma que Bitori continua a ser a sua maior referência enquanto tocador de gaita.


    Além do pai, destaca igualmente Iduíno como um dos grandes mentores da sua vida. "Não apenas na música, mas também na educação cívica e na forma de estar."


    Embora se sinta confortável a interpretar vários ritmos da música tradicional cabo-verdiana, e até outros géneros musicais, Bob Valentino reconhece que o Cotxi Po, uma das variantes mais rápidas e enérgicas do funaná, vive atualmente um momento de grande popularidade. Essa tendência tem aumentado significativamente a procura pelo seu trabalho, sendo frequentemente convidado para emprestar o som da sua gaita a gravações, espetáculos e festivais, confirmando o seu lugar entre os mais talentosos representantes da nova geração do funaná cabo-verdiano.