Há algo de simbólico no jogo desta sexta-feira, 26 de junho. Não apenas porque Cabo Verde decide diante da Arábia Saudita o seu futuro no Mundial, mas porque, pela primeira vez nesta competição, os Tubarões Azuis vão vestir aquilo que melhor os representa: o equipamento azul.
Depois de dois encontros disputados "fora" com equipamentos alternativos, branco frente à Espanha e vermelho diante do Uruguai, chegou finalmente a vez da camisola principal entrar em campo "em casa". A pergunta surge naturalmente: como pode Cabo Verde jogar “em casa” se todos os jogos decorrem em campo neutro? A resposta está nos regulamentos da FIFA. Os sorteios definem quem é considerado equipa visitada e visitante. Contra Espanha e Uruguai, Cabo Verde figurava como equipa de fora. Desta vez, diante da Arábia Saudita, os Tubarões Azuis jogam oficialmente em casa e, por isso, apresentam-se com a tradicional camisola azul.
É mais do que uma cor. É o azul dominante da bandeira nacional. O azul do mar que liga as ilhas e do céu que cobre o arquipélago. É uma cor carregada de significado para um país cuja bandeira, desenhada pelo Pedro Gregório Lopes (reconhecido como o primeiro arquiteto cabo-verdiano fará 91 anos em julho) e adotada em 1992, simboliza unidade, paz, esforço e construção nacional.
Mas as cores, por si só, não garantem a passagem à fase seguinte.
Tal como as outras seleções do grupo, Cabo Verde também entra na última jornada dependente apenas de si. Uma vitória diante da Arábia Saudita garante a qualificação, restando apenas saber se como primeiro ou segundo classificado. Caso o Uruguai vença a Espanha, os Tubarões Azuis poderão terminar no topo do grupo se apresentarem melhor diferença de golos. Se os uruguaios mantiverem vantagem nesse critério, Cabo Verde fica em segundo lugar. Já uma vitória espanhola colocará igualmente Cabo Verde na segunda posição.
O empate também mantém algumas portas abertas aos Tubarões Azuis. Se a Espanha derrotar o Uruguai, os cabo-verdianos poderão ainda terminar em segundo. Porém, caso os dois jogos terminem empatados, a classificação favorece Espanha, sendo que Cabo Verde e Uruguai, fazem as contas quem marcou maior número de golos para definir o segundo classificado.
Com três pontos, os Tubarões Azuis passariam se a Espanha vencer o Uruguai.
Recorde-se que, neste Mundial com 48 seleções, seguem para a fase a eliminar os dois primeiros classificados de cada grupo e os oito melhores terceiros.
Caso Cabo Verde consiga passar para a próxima fase. Aqui que começa outro exercício de imaginação.
Os classificados do Grupo H cruzam-se com os apurados do Grupo J. Nesse grupo, a Argentina lidera com duas vitórias e já garantiu presença na fase seguinte. Áustria e Argélia disputam a outra vaga.
Num cenário em que Cabo Verde avance como segundo classificado, poderá encontrar pela frente a campeã mundial em título. Para muitos, seria um duelo desigual. Para Cabo Verde, seria uma oportunidade histórica.
Os Tubarões Azuis habituaram-se a crescer perante adversários de dimensão superior. Jogar contra a seleção de Lionel Messi é um daqueles momentos que qualquer futebolista sonha viver. E para uma equipa como Cabo Verde, entrar em campo sem o peso do favoritismo pode ser uma vantagem. A pressão estaria toda do lado argentino.
Além do desafio desportivo, haveria outro ganho: a visibilidade. Um eventual Cabo Verde x Argentina colocaria o arquipélago durante dias no centro das atenções mediáticas mundiais. E se uma vitória cabo-verdiana já é considerada improvável, também é verdade que esta seleção tem demonstrado que o pequeno espaço reservado, os tais 1%, às probabilidades pode ser suficiente para fazer história.
Aliás, a visibilidade tem acompanhado os Tubarões Azuis desde que chegaram a esta competição. O sorteio colocou-os ao lado de duas seleções campeãs do mundo, Espanha e Uruguai, e isso trouxe naturalmente os holofotes. Mas a atenção conquistada só se transforma em respeito quando é acompanhada por boas exibições. E Cabo Verde respondeu dentro de campo.
Não é a primeira vez.
Em 2013, na estreia absoluta no Campeonato Africano das Nações (CAN), na África do Sul, o sorteio colocou Cabo Verde logo frente ao anfitrião no jogo de abertura da competição. O empate sem golos valeu muito mais do que um ponto. Foi a apresentação oficial dos Tubarões Azuis ao continente africano e ao mundo.
Nessa competição, Cabo Verde ultrapassou a fase de grupos e apenas caiu nos quartos-de-final diante do Gana. Apesar da derrota por 2-0, a seleção deixou uma imagem de enorme competitividade. O país recebeu os jogadores como heróis no regresso à Praia.
Aquele CAN produziu efeitos que ainda hoje se fazem sentir. Muitos jovens cabo-verdianos da diáspora passaram a olhar para a seleção nacional de forma diferente. Em vez de aguardarem até ao final das carreiras para representarem Cabo Verde, começaram a fazê-lo mais cedo.
Jamiro Monteiro é um desses exemplos. Nascido em Roterdão, nos Países Baixos, o médio já contou que as emoções vividas ao acompanhar o CAN de 2013 despertaram nele o sonho de vestir a camisola nacional. Tinha então 19 anos. Três anos depois estreava-se pelos Tubarões Azuis.
Agora, em 2026, ainda com veteranos como Ryan Mendes, Vozinha e Stopira, outra geração escreve a sua própria página.
A mística desta Seleção Nacional
Os Tubarões Azuis são um retrato do próprio país. Dos 26 jogadores convocados, 12 nasceram em Cabo Verde e 14 na diáspora. Uns fizeram a sua formação futebolística nas ilhas, outros cresceram e desenvolveram-se em academias espalhadas pela Europa. Curiosamente, nenhum atua atualmente no campeonato cabo-verdiano.
Mais do que um grupo de futebolistas, esta seleção tornou-se, ao longo dos últimos 15 anos, numa verdadeira família. Um balneário sólido, construído em torno da identidade cabo-verdiana, onde a música, a língua crioula e o sentimento de pertença aproximam jogadores que nasceram em geografias diferentes. Essa união traduz-se em valores como o trabalho coletivo, a entreajuda, o respeito mútuo e um orgulho imenso por representar o arquipélago.
Roberto Lopes, conhecido por "Pico", é um dos melhores exemplos dessa identidade construída dentro da Seleção. Nascido na Irlanda, chegou aos Tubarões Azuis em 2018 sem falar crioulo nem português. Hoje, além de ser um dos pilares da defesa cabo-verdiana, comunica em crioulo e integrou-se plenamente na cultura do grupo. É uma demonstração de que vestir a camisola de Cabo Verde vai muito além da nacionalidade ou do local de nascimento.
Os Tubarões Azuis não jogam apenas com organização tática e qualidade técnica. Jogam também com alma, coração e suor. Basta observar a reação aos golos. Ver um jogador sair do banco para abraçar um companheiro, emocionado, com lágrimas de felicidade, é perceber que ali não existe apenas uma equipa, mas uma família. A cumplicidade estende-se igualmente à equipa técnica e a todo o staff, numa relação rara e fundamental para o sucesso do grupo.
À frente desta família está Bubista. Antigo capitão dos Tubarões Azuis enquanto jogador, conhece como poucos a importância de um balneário unido. Lidera pela proximidade, pela simplicidade e pelo exemplo. É frequente vê-lo a dançar, a brincar com os jogadores nos momentos de descontração e, quando chega a hora do trabalho, impor respeito sem necessidade de levantar a voz. Uma liderança serena, que ajuda a explicar porque esta seleção parece sempre jogar por algo maior do que os 90 minutos.
Cabo Verde chega à última jornada com dois pontos conquistados em dois empates históricos: um nulo frente à Espanha e um emocionante 2-2 diante do Uruguai. A Arábia Saudita soma apenas um ponto, resultado do empate a um golo com os uruguaios na ronda inaugural, antes da derrota por 4-0 frente à Espanha.
Os sauditas carregam a experiência de sete participações em Campeonatos do Mundo desde a estreia em 1994. Cabo Verde apresenta algo diferente: entusiasmo, confiança e a sensação de estar a viver um momento único da sua história desportiva.
O encontro terá ainda um significado especial para Ryan Mendes. Aos 36 anos, o capitão deverá cumprir o jogo número 101 pela Seleção Nacional, reforçando o estatuto de jogador com mais internacionalizações. Ele que é o maior marcador da história dos Tubarões Azuis, com 22 golos. A sua aventura internacional começou a 11 de agosto de 2010, num amigável frente ao Senegal.
Já Sidny Cabral, um dos destaques desta Seleção, ficará de fora por castigo, após acumulação de cartões amarelos. O médio viu amarelo diante da Espanha, curiosamente na única falta cometida por Cabo Verde em todo o encontro, um registo que entrou para a estatística como a menor quantidade de faltas cometidas por uma equipa num jogo de Mundial desde 1966.
Nesta sexta-feira, quando a bola começar a rolar, será mais um jogo. Mas também será mais um capítulo de uma história que continua a desafiar probabilidades e a fazer um país inteiro acreditar.
DB





