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    Cantinho da LoideMar: um espaço simples, um mundo inteiro de afeto - onde as plantas aprendem a ser mimos

    13 de fevereiro de 2026

    "Planta é vida. E é a minha grande alegria." É assim que Loide Costa nos recebe quando entramos, literalmente, no seu pequeno refúgio verde, o Cantinho da LoideMar.


    O espaço é simples e acolhedor. Um pequeno quintal, no fundo da casa, coberto por uma estrutura transparente que deixa a luz entrar sem pedir licença. A claridade pousa nas folhas, escorre pelas pétalas e dá ao lugar um tom especial, íntimo, como se cada planta soubesse que ali é cuidada com tempo, atenção e afeto.


    Loide chama-se, por inteiro, Loide Margareth Cabral Borges Soares Costa, um nome longo, como a generosidade com que fala daquilo que faz. Natural do Tarrafal, no norte da ilha de Santiago, conta que, desde criança, desenhava flores em tudo o que encontrava. Cadernos, livros, folhas soltas, bastava uma caneta na mão e lá estavam as flores, a nascer no papel.


    Esse hábito acompanhou-a pela vida fora. Mesmo já no trabalho, em qualquer pausa, surgia mais um desenho, mais uma flor improvisada.


    Até que, um dia, a amiga do filho adolescente ofereceu-lhe uma pequena planta num vaso. Loide e a família tinha acabado de mudar para a sua própria casa e, curiosa, perguntou o porquê daquele presente. A resposta foi simples: uma planta é um presente com vida, ideal para quem começa um novo espaço.


    A pequena planta foi colocada num compartimento discreto da casa. Depois veio outra. E mais outra. Aos poucos, aquele canto encheu-se de verde e de amor, e Loide descobriu uma alegria nova cada vez que uma flor se abria.


    "Não sei o que despertou em mim… Só sei que ia ao mercado para comprar tomate e pimentão e voltava sem nada, porque gastava tudo em plantinhas", conta, entre risos, com um sorriso largo que nasce do fundo da alma, e que contagia quem está por perto.


    Entre uma frase e outra, confessa: "Certa vez, enquanto cozinhava, vi uma flor a desabrochar. Senti uma alegria tão grande… nem sei explicar. Levanto-me logo de manhãzinha para ver se nasceu alguma flor. Vou logo ao cantinho e também ao terraço".


    Foi dessa alegria muito simples, e muito verdadeira, que nasceu a vontade de partilhar. Se um gesto tão pequeno lhe trazia tanto bem, porque não transformá-lo em "mimos" para outras pessoas?


    Assim surgiu o nome Cantinho da LoideMar, onde "Loide" carrega o seu próprio nome, "mar" vem de Mário, o esposo, "Marito" lembra o filho e, de forma quase poética, evoca também a forte ligação afetiva que os tarrafalenses mantêm com o mar. O Tarrafal, aliás, está presente em muitos dos seus produtos, especialmente procurados por quem traz a terra no coração.


    "Pensei em oferecer plantas. Mas depois achei que, se a pessoa não tivesse paixão por elas, talvez não cuidasse como merecem", recorda. Foi então que surgiu a primeira oportunidade de mostrar o seu trabalho ao público, numa pequena exposição/venda no restaurante Nice Kriola, na cidade da Praia, com vista para a praia de Quebra Canela. A data ficou guardada como um marco: 27 de março de 2018, Dia da Mulher Cabo-verdiana.


    O que começou como uma experiência tímida transformou-se, pouco a pouco, num serviço de entrega de presentes feitos com plantas ornamentais, e com o tempo a dição de chocolates, pequenos brindes, bolos de aniversário, e, sobretudo, uma dose generosa de carinho.


    Grande parte da clientela vive na diáspora, em Portugal, França, Países Baixos e nos Estados Unidos, e recorre ao Cantinho da Loidemar para surpreender familiares, cônjuges e amigos em Cabo Verde.

    A partir de 2020, com a pandemia da Covid-19 e as limitações às viagens, a procura cresceu de forma significativa. Loide lembra que, nessa altura, apesar do boom de novas empresas no ramo, a empresa já tinha alguma experiência e soube responder a um desejo muito específico: fazer chegar o amor… mesmo à distância.


    O Cantinho da LoideMar continua a funcionar num canto da sua própria casa. Mas o coração do projeto, esse, já corre mundo.


    O aumento da procura por parte dos emigrantes levou Loide a marcar presença em encontros internacionais, como o Cabo-Verde Business Connect, promovido pela empresária Dina Mendes, nas edições de Paris (2023) e de Marselha (2025).


    Em 2023 esteve também nos Estados Unidos, no Nha Tera Nha Kretchêu-Festival, promovido por Melany Vieira, dedicado à celebração da cultura cabo-verdiana. No mesmo ano, foi convidada para um evento comunitário em Roterdão. Não pôde deslocar-se, mas fez questão de enviar os seus produtos para a exposição.


    "Em todos esses encontros, foi um sucesso", diz, com a simplicidade de quem prefere deixar que o trabalho fale.


    Entre os produtos com muita procura nos últimos tempos estão também cachecóis de pano-di-terra e pequenos brindes com referências a Cabo Verde e a lugares específicos do país, lembranças que os residentes oferecem a familiares e amigos que vêm visitar a terra.


    Por trás das plantas e dos mimos está ainda a mulher da educação e da televisão. Loide Costa é professora de formação, lecionou na Escola da Fundação Infância Feliz, no bairro da Calabaceira, e é quadro da Televisão de Cabo Verde, na área da régie e produção.


    No fundo, entre câmaras, aulas e entregas, Loide continua a fazer exatamente o que fazia em criança: semear flores. Agora, porém, não apenas no papel, mas na vida de quem recebe, num pequeno vaso, um gesto de amor.

     

     

    DB