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    Kani: o garoto do Sal que conquistou São Filipe na maior corrida de cavalos do país

    14 de maio de 2026

    Faltavam pouco mais de 50 metros para a meta quando o rapaz franzino virou o rosto para trás. Quis medir a distância do adversário, talvez confirmar o impossível. Percebeu que a vitória já lhe corria ao lado. Abriu os braços antes do tempo, levantado pela adrenalina e pela incredulidade. A cerca de 15 metros da linha final, atirou o chicote ao ar, num gesto puro de consagração.


    Se aquele instante pudesse ficar congelado, ver-se-iam quase todos os olhos do hipódromo presos naquele jovem jockey. E quase toda a gente a festejar com ele.


    Assim, em poucos segundos, Kani conquistou o coração dos foguenses, os maiores amantes das corridas de cavalos em Cabo Verde.

     

    Kani chama-se, afinal, Ronilson Nascimento. Tem 16 anos, vem da ilha do Sal e chegou ao Fogo para participar pela primeira vez na maior prova de hipismo do país: a corrida de cavalos das Festas de Nhô São Filipe. No final, ainda respirava de forma rápida, confessava que tinha acabado de realizar um sonho.


    O ambiente no hipódromo de São Filipe estava elétrico desde cedo. Bancadas cheias, gente espalhada ao longo da pista, crianças aos ombros dos pais, emigrantes de férias, empresários, idosos, curiosos. No Fogo, o hipismo vive-se com uma intensidade rara. E talvez não exista em Cabo Verde manifestação mais democrática do que esta: durante algumas horas, toda a ilha parece reunir-se à volta da pista.


    A finalíssima contou com dois cavalos: Arbissa Sabi, montada por Kani, e Djabraba, conduzido pelo jockey Mauro, da cidade da Praia. Nos primeiros metros correram praticamente lado a lado. Mas bastaram cerca de 30 metros para Kani assumir a frente. A partir dali, a distância entre os dois cavalos foi crescendo metros após metros, passada após passada. Os últimos metros já eram de festa.


    Arbissa Sabi pertence ao proprietário Arlindo Lopes, que conseguiu colocar quatro dos seis cavalos finalistas numa prova que reuniu 14 participantes. Kani explica que monta cavalos ligados à cocheira de Balta Nascimento, presidente da Associação Hípica do Sal, e que a amizade entre os proprietários acabou por facilitar a sua viagem até à ilha do Fogo.


    Nascido e criado em Santa Maria, cidade turística da ilha do Sal, Kani cresceu perto dos cavalos usados nos passeios turísticos. Foram os guias que, aos poucos, lhe começaram a confiar as primeiras montadas. Diz que começou a correr aos 14 anos e que nunca mais quer parar.


    A primeira experiência fora do Sal aconteceu em São Vicente, onde terminou em segundo lugar. Em 2025 esteve também na final da concorrida corrida das festas de Son Jon, em Porto Novo, mas uma queda após contacto do cavalo com pessoas que invadiram a pista afastou-o da vitória.


    Talvez por isso a explosão de alegria em São Filipe tenha sido ainda maior.


    Kani foi festejado no hipódromo como se fosse um filho da ilha. E quando regressou ao Sal encontrou nova receção dos familiares e amantes de cavalos da ilha, em festa no Aeroporto Internacional Amílcar Cabral.


    Afinal, aquele rapaz franzino que atirou o chicote ao ar tornou-se o primeiro salense a vencer a mais emblemática corrida de cavalos de Cabo Verde.

     

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    DB