Este sábado, 18 de julho, a Tabanca da Várzea da Companhia, na cidade da Praia, realiza o tradicional desfile de "Busca Santo", último dos três cortejos das tabancas da capital neste ano.
Uma semana antes, a 11 de julho, tinham sido as tabancas de Txada Santo António e de Txada Grande a sair à rua. O momento mais curioso aconteceu no Centro Histórico da Praia - o Plateau, quando os dois cortejos se cruzaram em sentidos opostos. Ninguém parou. Cada grupo manteve o seu percurso, como manda uma rivalidade antiga que o tempo foi amaciando, mas nunca apagou por completo.
Foi um encontro breve, mas intenso. Os tambores ganharam outra cadência, os búzios soaram com mais força e as cantadeiras elevaram as vozes. Houve abraços entre conhecidos, sorrisos cúmplices e também algumas picardias, dessas que fazem parte da tradição. Uma senhora da Tabanka de Txada Grande, entre risos, comentou para os companheiros: "Viram como aquela altona, de coxa larga, virou e rebolou para nós?! Cá se faz, cá se paga." Era mais teatro do que provocação, mais folclore do que conflito.
Os mais velhos contam, porém, que nem sempre foi assim. Houve tempos em que os desfiles coincidiam no mesmo dia e os grupos encontravam-se na estrada Baxu Ponta Belém, junto ao Plateau. A rivalidade era tanta que, por vezes, terminava em confrontos generalizados. Hoje, resta apenas a memória dessas disputas. A competição transformou-se em respeito mútuo e já não é raro ver membros de uma tabanca a integrarem o desfile de outra.
Foi precisamente a acompanhar a Tabanka de Txada Santo António que se percebeu como esta tradição continua viva. O cortejo partiu da capela da tabanca, na Rua da Tabanca, em Achada Santo António. À medida que avançava, juntavam-se moradores, curiosos e antigos participantes. Ninguém precisava de convite. Bastava ouvir os tambores.
O percurso levou o cortejo ao Plateau, desceu para a Fazenda, atravessou Sucupira e entrou na Várzea. Ali, o ritmo intensificou-se. Também naquele bairro a tabanca é vivida com fervor, e a população saiu à porta para saudar os desfilantes. Depois, o cortejo regressou a Achada Santo António e seguiu para Meio d'Txada, onde estava o santo simbolicamente "roubado". Foi aí que a festa atingiu um dos seus momentos mais intensos.
As três tabancas da cidade da Praia mantêm viva a tradição das festas juninas. A Tabanca Txada celebra Santo António, enquanto as tabancas de Txada Grande e da Várzea da Companhia homenageiam São João. No dia do santo padroeiro, a bandeira que simboliza o santo, um pano branco com uma pequena cruz vermelha e uma vara de salva, é ritualmente "roubada" e entregue ao chamado rei ou rainha de agasalho, que a guarda. Entre três e cinco semanas depois, conforme a disponibilidade dessa pessoa, realiza-se o desfile de Busca Santo, destinado a recuperar simbolicamente o santo e devolvê-lo à sua capela.
Esta manifestação secular, que segundo documentos do Ministério da Cultura de Cabo Verde, a manifestação da tabanca terá surgido em Cabo Verde, nas zonas rurais da ilha de Santiago, nos meados do século XVI, mas toda a documentação existente sobre ela é datada do século XVIII.
O cortejo preserva uma organização própria, reflexo da sociedade simbólica da Tabanca. À frente segue a Corte Real, composta pelos reis, rainhas e filhas de Santo. O Corpo Militar, formado por soldados, oficiais e carrascos, assegura a ordem cerimonial. Os músicos, tocadores de tambores, cornetas e búzios, marcam o compasso da marcha, enquanto os cativos, representando a restante comunidade, acompanham o desfile com danças, cantos e trajes coloridos.
Há também um simbolismo particular no percurso até ao Plateau. Durante o período colonial, as tabancas estavam proibidas de desfilar naquele espaço, reservado à cidade formal, onde se concentravam o poder político, administrativo e militar. Só depois da Independência Nacional, em 1975, esse limite desapareceu. Desde então, subir ao Plateau deixou de ser apenas parte do itinerário para se transformar num gesto de afirmação cultural e de conquista simbólica do espaço urbano. Os cortejos continuam a partir das suas capelas, fazem questão de passar pelo centro histórico e seguem depois para a casa onde o santo foi guardado.
Mais do que recuperar uma bandeira, o desfile de Busca Santo representa a recuperação da memória, da identidade e do espírito comunitário que há séculos caracterizam a Tabanca. É um teatro de rua, um ritual religioso, uma celebração popular e uma manifestação de resistência cultural, tudo ao mesmo tempo.
A manifestação da Tabanca foi classificada como Património Cultural Imaterial Nacional a 9 de agosto de 2019, na mesma data em que a Língua Cabo-verdiana foi elevada à categoria de Património Nacional.
Cada desfile que percorre as ruas da Praia é, por isso, mais do que uma festa: é uma tradição que continua a escrever, ao ritmo dos tambores, uma das páginas da rica cultura cabo-verdiana.
DB
