Depois da estreia histórica no Mundial FIFA 2026, os Tubarões Azuis voltam a entrar em campo. A Seleção Nacional masculina de futebol joga esta sexta-feira, 25 de setembro, no Mali, naquele que será o primeiro compromisso competitivo depois da aventura inédita no maior palco do futebol mundial. E que aventura.
Cabo Verde chegou ao Mundial pela primeira vez e saiu de lá deixando uma marca que ultrapassou os relvados. Foram quatro jogos, três empates, diante de Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, e uma derrota, frente à Argentina de Lionel Messi, nos 32 avos de final, já no prolongamento.
Mas houve mais. Houve momentos individuais que ganharam dimensão internacional. Sidny assinou, diante da Argentina, aquele que ficou oficialmente registado como um dos golos mais bonitos da competição. E houve Vozinha, o guarda-redes que transformou defesas em conteúdo viral e saiu do Mundial como um dos grandes fenómenos globais nas redes sociais, depois de exibições de grande nível frente a algumas das maiores potências do futebol mundial.
Quando regressaram a Cabo Verde, os Tubarões Azuis encontraram um país à sua espera. Foram recebidos como heróis nacionais, entre multidões, festa e orgulho. Antes da partida para o Mundial, a Seleção já havia sido distinguida pelo Presidente da República com a Medalha de Mérito, Primeira Classe. Depois da histórica participação, veio uma distinção ainda maior: a Ordem Amílcar Cabral, Primeiro Grau, uma das mais altas distinções do Estado, pelo impacto cultural, social e desportivo da campanha e pela projeção internacional que trouxe ao país.
Agora, começa outra história. No Mali, Cabo Verde estreia-se no Grupo K das eliminatórias para a Taça de África das Nações, CAN 2027, competição prevista para setembro e outubro de 2027, no Quénia, Uganda e Tanzânia.
Será também uma estreia no banco. Humberto Bettencourt assume pela primeira vez, como selecionador principal, o comando dos Tubarões Azuis. Uma função que conhece por dentro: desde janeiro de 2020, foi adjunto de Pedro "Bubista" Brito e acompanhou de perto todo o percurso que levou Cabo Verde a duas presenças no CAN (2022 e 2024) e a histórica participação na fase final do Mundial FIFA(2026).
Quatro dias depois, a Seleção regressa a casa. E aqui começa uma daquelas pequenas histórias que parecem saídas de uma crónica.
No dia 29 de setembro, terça-feira, às 15h00, Cabo Verde recebe o Ruanda para a segunda jornada do Grupo K. Será o primeiro jogo dos Tubarões Azuis no Estádio Nacional Tubarões Azuis.
Ou seja: os Tubarões Azuis jogam no Tubarões Azuis. A frase parece uma brincadeira linguística, mas é perfeitamente oficial. Uma redundância com direito a explicação gramatical: uma espécie de jogo de palavras provocado pela antonomásia. Coisas da língua portuguesa.
Para Humberto Bettencourt, o regresso ao estádio terá ainda um significado especial. Foi ali que, como treinador, viveu uma das histórias improváveis do futebol santiaguense. Em 2018/19, comandando o Celtic, do bairro de Achadinha, conseguiu um feito inédito, conquistou o primeiro, e até hoje único, título do clube no campeonato regional de Santiago Sul.
Agora volta ao mesmo relvado, mas sentado no banco como Selecionador principal de Cabo Verde.
Entre a histórica qualificação para o Mundial, conseguida a 13 de outubro de 2025, frente a Eswatini, e o primeiro jogo no Mundial, diante da Espanha, a 15 de junho de 2026, passaram exatamente 245 dias. Foi neste intervalo de tempo que o Estádio Nacional ganhou um sobrenome.
A 13 de março de 2026, uma Resolução do Conselho de Ministros oficializou a nova designação: Estádio Nacional Tubarões Azuis. No dia seguinte, numa cerimónia presidida pelo então primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva, foi descerrada a placa com o novo nome. Um tributo às seleções nacionais de Cabo Verde e a todos os atletas, treinadores e agentes desportivos que, ao longo dos anos, elevaram o nome do país.
Mas o caminho até chegar aos Tubarões Azuis teve uma paragem pelo Rei. Pelé morreu a 29 de dezembro de 2022, aos 82 anos. Após a sua morte, o então presidente da FIFA, Gianni Infantino, apelou aos países membros para que homenageassem a maior referência do futebol brasileiro e mundial. Cabo Verde respondeu rapidamente. A 4 de janeiro de 2023, Ulisses Correia e Silva anunciou a intenção de rebatizar o Estádio Nacional como “Estádio Pelé”. Cabo Verde chegou a ser apontado como o primeiro país a aderir à proposta.
Mas, desta vez, o jogo aconteceu fora do relvado. A proposta encontrou forte contestação popular e acabou por ser abandonada pelo Governo. O estádio continuou, oficialmente, a chamar-se simplesmente Estádio Nacional.
Durante anos, cada um foi dando o seu nome: Shark Arena para uns, Estádio Monte Vaca para outros, numa referência à localidade onde está situado.
Até chegar 13 de março de 2026. O nome ficou finalmente definido e registado no Boletim Oficial (nº 30, I Série de 13-03-2026): Estádio Nacional Tubarões Azuis.
Inaugurado a 23 de agosto de 2014, com capacidade para 15 mil espectadores, situado no norte da cidade da Praia, em Monte Vaca, é atualmente a maior infraestrutura desportiva de Cabo Verde e o único recinto do país certificado pela FIFA para receber jogos internacionais.
A Seleção Nacional masculina jogou pela primeira vez no Estádio Nacional a 10 de setembro de 2014. A estreia não podia ter começado melhor: vitória por 2-1 sobre a Zâmbia, num jogo de qualificação para o CAN 2015. O primeiro golo oficial da Seleção naquele relvado foi marcado pelo avançado Zé Luís.
Desde então, o estádio tornou-se uma espécie de álbum de memórias dos Tubarões Azuis. São 27 jogos disputados, com 15 vitórias, seis empates e seis derrotas, diante de Marrocos, Líbia, Burkina Faso, Uganda, Senegal e Botswana.
Entre as vitórias, há duas que ganharam lugar especial na história recente. A primeira foi diante dos Camarões, nas eliminatórias para o Mundial 2026. Uma vitória que cimentou a liderança de Cabo Verde no grupo, quando faltavam apenas duas jornadas para o fim da qualificação, e que provocou a primeira invasão pacífica do relvado num jogo da Seleção Nacional naquele estádio.
Depois veio Eswatini. O jogo foi uma crónica de uma vitória anunciada diante da laterna vermelha do grupo. Que confirmou a qualificação histórica para o Mundial FIFA 2026. Neste dia Cabo Verde vestiu de gala para festejar algo inédito. Vídeo makers e músicos estavam no estádio a gravavam takes para futuros videoclips de incentivo aos Tubarões Azuis no Mundial 2026.
Agora, quase um ano depois daquele momento, os Tubarões Azuis regressam ao palco onde tantas páginas foram escritas.
E desta vez há uma novidade.
O estádio já tem nome.
E é o mesmo nome de quem vai entrar em campo.
Tubarões Azuis no Estádio Nacional Tubarões Azuis.
Às vezes, a gramática também sabe jogar futebol.
Crónica Décio Barros





