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    Precisamos de falar sobre o videoclip “Tet”, de Batchart

    12 de agosto de 2026

    Há videoclipes que acompanham uma música. Há outros que ajudam a dar-lhe uma segunda vida. E depois há aqueles que nos obrigam a parar, voltar atrás e perguntar: como é que isto foi feito? É o caso de “Tet”, de Batchart, lançado no YouTube a 15 de agosto de 2024. Dois anos depois, continua a merecer conversa, não apenas pela música, mas sobretudo pela forma como foi transformada em imagem.

     

    “Tet” é uma obra audiovisual que rompe com alguma da tendência dominante na produção de videoclipes em Cabo Verde. Por cá, não são raras as produções que seguem uma fórmula quase previsível: a imagem limita-se a ilustrar literalmente aquilo que a música diz, ou então temos uma sucessão de planos do artista, geralmente o próprio cantor, num cenário bonito, num estúdio ou rodeado de mulheres bonitas, com a maquilhagem e a estética a ocuparem boa parte da narrativa. E, claro, não faltam os inevitáveis rebolados, que também podem ajudar a explicar algumas estatísticas de visualizações.

     

    Batchart há muito que procura fugir ao cliché. Fá-lo nas letras, na forma de abordar temas e, cada vez mais, na maneira como a sua música é transportada para o ecrã.

     

    Em 2023, o videoclip de “Pa Riba Des”, de Batchart feat Kiddye Bonz, venceu o prémio de Melhor Videoclip nos Cabo Verde Music Awards (CVMA). A realização e direção foram de Reginaldo Cruz, através da sua produtora RZR.

     

    A mesma RZR esteve por trás de “Mununu”, de Dieg, vencedor do prémio de Melhor Videoclip nos CVMA 2022.

     

    E chegamos a “Tet”, vencedor do prémio de Melhor Videoclip nos CVMA 2025. Aqui, Reginaldo Cruz e a sua equipa parecem ter decidido subir mais um degrau. E seria bom que essa bitola se mantivesse. E, sobretudo, que servisse de estímulo para que mais músicos cabo-verdianos percebam que um videoclip pode ser muito mais do que uma música ilustrada em imagens.

     

    "Tet" foi pensado ao detalhe. Reginaldo conta que foram cerca de um mês de pré-produção e uma semana de filmagens, tudo concentrado num único espaço, amplo o suficiente para facilitar a logística e, ao mesmo tempo, permitir que a criatividade não ficasse limitada. “E podia ter sido ainda mais”, admite.

     

    O resultado é o culminar de experiência acumulada e, sobretudo, criatividade.

     

    “Tet” é o quarto videoclip de Batchart com a assinatura de Reginaldo Cruz. Antes vieram “Pa Riba Des”, “Navio Vicente”, este último num trabalho conjunto com outros realizadores, e “1+1”.

     

    Mas há uma particularidade importante neste processo de produção de "Tet". No CVCultural Podcast, Batchart contou que abriu mão de participar diretamente no processo criativo e entregou a iniciativa a Reginaldo Cruz.

     

    Não é uma decisão pequena para um músico. Afinal, entregar a interpretação visual de uma obra a outra pessoa significa abdicar, pelo menos em parte, do controlo sobre aquilo que se imaginou quando a música foi escrita. Batchart reconhece isso. Mas confiou.

     

    E havia uma razão: Reginaldo não é apenas videomaker. É também músico, baixista e elemento da banda de Batchart, tendo acompanhado o artista em vários concertos pelo país. Ou seja, conhecia a música por dentro.

     

    Reginaldo confirma que essa experiência musical ajuda. Sobretudo no ritmo da edição, na valorização das performances e na capacidade de perceber quando a imagem deve acompanhar, contrariar ou simplesmente deixar respirar a música.

     

    Há ainda outro ingrediente nesta história: São Vicente. Para Reginaldo Cruz, concretizar uma ideia desta dimensão torna-se mais fácil na ilha. Não apenas pela logística, mas porque Mindelo é, há décadas, uma espécie de viveiro artístico.

     

    O Mindelact e escolas de teatro ajudaram a formar e a revelar gerações de atores. A indústria do Carnaval elevou a fasquia das artes plásticas e da cenografia. E a dança é outra das áreas em que a cidade construiu uma tradição própria.

    É desta matéria-prima artística que também se alimentam produções como “Tet”.

     

    Reginaldo conta que quis mostrar a sociedade que vivemos através de uma linguagem artística, carregada de símbolos. Nada está ali por acaso. Cada elemento procura dizer qualquer coisa, mesmo quando não o faz de forma óbvia.

     

    E embora a ideia e o guião sejam seus, o realizador faz questão de repartir os méritos.

    Destaca o trabalho de Débora Melício, na produção, figurinos e coreografia; de Sams Fac.tory, no makeup e set design; dos elementos da sua produtora audiovisual; e de Jardel Barbosa, na equipa de câmaras e na Direção de Fotografia.

     

    Basta, aliás, consultar a descrição do videoclip no YouTube para perceber a dimensão da equipa e a quantidade de profissionais envolvidos. A extensa ficha técnica diz, por si só, que ali houve trabalho de equipa, e não apenas alguém a carregar no botão da câmara.

     

    Nascido e criado em São Vicente, Reginaldo Cruz é um videomaker autodidata. Trabalha na área audiovisual desde 2015, mas a relação com a música vem de muito antes. Começou a tocar por volta dos 15 anos, ainda nos tempos do liceu, integrado numa banda. Reginaldo olha para a música com olhos de quem também a escuta por dentro. Não apenas como som, mas como ritmo, pausa, intensidade, performance. E isso nota-se.

     

    Há, no entanto, uma imagem que talvez resuma melhor toda esta história. Na gala dos CVMA 2025, realizada no Porto da Praia, sucediam-se os vencedores que, ao subir ao palco, repetiam a tradicional frase: “Não estava à espera deste prémio”.

     

    Quando chegou a vez de anunciar o vencedor de Melhor Videoclip, Batchart levantou-se. Caminhou até ao palco com passos firmes. E, ao chegar ao púlpito, disparou, com a tranquilidade de quem sabia exactamente o que estava ali a fazer: “Se há prémio que eu estava à espera, é este!” Não foi arrogância. Apenas convicção.

     

    Porque, naquele momento, Batchart não estava apenas a receber um prémio por uma música. Estava a ver reconhecido um trabalho no qual decidiu confiar cegamente no olhar de outro artista. E Reginaldo Cruz, por sua vez, tinha acabado de transformar “Tet” numa daquelas raras obras que nos lembram que um videoclip pode ser muito mais do que um acessório promocional de uma canção. Pode ser cinema. Pode ser arte. E, quando tudo corre bem, pode até tornar-se uma obra com vida própria.

     

     

    Crónica Décio Barros