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    Vozinha pega a bola!

    10 de julho de 2026

    Crónica de Mónica Moura

     

    Nunca imaginei que o futebol me conquistasse desta forma. Durante muitos anos olhava para um jogo como quem observa algo distante, incapaz de compreender porque tantas pessoas choravam, gritavam ou ficavam sem dormir por causa de uma bola. Hoje sorrio ao lembrar-me disso, porque agora sou eu quem vive tudo isso.


    Foi a participação histórica de Cabo Verde no Mundial que mudou alguma coisa dentro de mim. Não foi apenas uma competição. Foi um despertar.


    Cada jogo parecia um capítulo de um livro que ninguém queria que terminasse. O coração acelerava, as mãos suavam e o peito parecia pequeno para guardar tanta emoção. Gritei de alegria, pulei, sofri, fiquei em silêncio, rezei, temi o pior e acreditei até ao último segundo.


    Os nossos rapazes entravam em campo como quem carregava um país inteiro às costas. Jogavam com garra, determinação, coragem e uma confiança que contagiava todos nós. Não importava quem estivesse do outro lado. Eram seleções favoritas, jogadores considerados os melhores do mundo, mas os Tubarões Azuis nunca entravam derrotados.


    E havia o Vozinha...


    Ah, o Vozinha!


    Nunca pensei que um guarda-redes pudesse tirar tantos anos de vida aos adeptos. Quantas vezes eu gritava para a televisão: "Vozinha, pega a bola!" E quando ele a segurava e continuava a jogar com os pés, fintando os adversários com uma tranquilidade impressionante, eu quase queria entrar em campo para a chutar por ele. Depois veio aquele jogo diante da Argentina. Ver o Vozinha enfrentar jogadores como o Messi com tanta personalidade fez-me perceber que o medo, afinal, também pode vestir a camisola do adversário.


    Sempre que os nossos jogadores avançavam para a baliza contrária, eu fazia aquilo que qualquer cabo-verdiana de fé faria: entregava-os nas mãos de Deus. Pedia que acompanhasse cada passe, cada corrida e cada remate. Naquele momento, o futebol deixava de ser apenas desporto. Tornava-se oração, esperança e orgulho.


    Quando a equipa regressou ao país, fui ao aeroporto recebê-los. Achei que iria apenas aplaudir. Enganei-me. Assim que vi o Vozinha e os seus companheiros, todas as emoções voltaram de uma só vez. Sem pensar, gritei com toda a força: "Vozinha!" Nem percebi que havia câmaras por perto. Mais tarde disseram-me que os paparazzi tinham captado exatamente aquele momento. Sorri. Não foi um grito ensaiado. Foi o coração a falar antes da razão. Ainda hoje estou a aprender a lidar com tudo aquilo que senti.


    Mas talvez a maior vitória nem tenha acontecido dentro das quatro linhas.


    Acredito que Cabo Verde nasceu de novo com esta participação no Mundial. O mundo inteiro passou a olhar para este pequeno país perdido no Atlântico e descobriu um povo gigante em coragem, talento e paixão. Milhares de pessoas, que antes talvez nem soubessem apontar Cabo Verde no mapa, agora querem conhecer as nossas ilhas, a nossa cultura, a nossa música, a nossa gastronomia e, sobretudo, a nossa gente.


    Este Mundial deu-nos muito mais do que resultados. Deu-nos visibilidade. Deu-nos autoestima. Deu-nos uma oportunidade.


    Agora cabe-nos estar à altura desse momento. Preparar o país para receber quem nos quiser visitar, investir no turismo, mostrar o melhor de nós e provar que a grandeza de Cabo Verde nunca dependeu do tamanho do território, mas sim do tamanho do coração do seu povo.


    Descobri tarde a paixão pelo futebol. Mas talvez tenha sido no momento certo.


    Porque agora sei que o futebol pode fazer muito mais do que decidir campeões.


    Pode acordar uma nação inteira.